Inclusão do torcedor na ação e gestão

Planeta Guarani, 10 de julho de 2008.

Caros amigos do Planeta Guarani e, principalmente, querida torcida bugrina, visto os últimos acontecimentos e manifestações da torcida no sentido de ajudar o clube, resolvi tratar do assunto na coluna de hoje.

Como já havia dito, eu acredito que o futebol moderno deva ser gerido como uma empresa, voltado a lucro e resultados, de maneira profissional, ou seja, por profissionais especializados e remunerados. Obviamente o futebol não pode ser visto exclusivamente pelo prisma de um negócio, pois envolve um componente muito atípico quando comparado ao mundo empresarial: O Torcedor, que tem o amor incondicional pelo clube, e mesmo quando não é bem tratado, estará lá para apoiar o clube de coração, ou seja, é o único cliente que volta mesmo ao ser mal atendido.

Porém o torcedor tem que ser visto como a chave para o futuro do futebol. É o torcedor quem paga o ingresso, paga a assinatura da TV a cabo, compra os artigos do clube. Enfim, ele é que mantém o clube vivo. Quando clubes encontram-se em situação de crise, geralmente são os torcedores que salvam o clube. Os clubes têm que ter a visão comercial de valorizar seus torcedores (clientes), envolvê-los nos assuntos do clube, e não simplesemente tratá-los com desprezo pelo fato de que eles estarão sempre lá, não importando as condições.

A pergunta é: Como o torcedor pode efetivamente participar na gestão de um clube de futebol? Como a estrutura atual da maioria dos clubes de futebol no Brasil ainda é a de um clube social e esportivo amador. os estatutos dos clubes limitam quase que na totalidade a participação legal do torcedor nas tomadas de decisão do clube. Em alguns paises da Europa, (vou citar o exemplo da Inglaterra que foi uma das pioneiras no assunto) foram criadas entidades patrocinadas pelo governo para auxiliar torcedores de clubes a se organizarem e formarem voz ativa nas decisões do futuro dos clubes.

Para quem entende bem inglês, segue abaixo alguns links a respeito:

Associação dos torcedores do Manchester United
Federação dos torcedores de futebol da Inglaterra
Federação Internacional dos torcedores de futebol

Tentando fazer um paralelo do funcionamento dessas associações de times europeus com uma empresa, seria como organizar os acionistas minoritários de uma empresa e unificar os esforços e vontades individuais numa só voz ativa junto ao Conselho de uma empresa de capital aberto. De forma simplificada, os torcedores compram algumas ações do time e se tornam membros da associação. A associação, ao juntar todas essas pequenas participações dos torcedores, passa a ter um percentual global significativo que lhe dá direito a opinar nas decisões do clube.

Como isso seria possível no Brasil? A resposta está na desvinculação do futebol profissional do clube social e formação de uma “S.A.”.  Num primeiro momento, os acionistas da S.A. seriam o clube ou os sócios do clube, para depois haver uma transição para uma oferta pública ou privada de ações.

Vocês vão me perguntar se não há o risco de uma empresa, que não tem vínculos afetivos com o clube como um torcedor tem, passar a controlar o clube e tomar decisões que não são do interesse do torcedor. Claro que existe, e por isso a criação de associação de torcedores acionistas se torna fundamental.

Bom, de volta a nossa realidade, enquanto não existe essa estrutura como na Europa, cabe a nós, torcedores tentarmos nos organizarmos da melhor maneira possível e propormos ações conjuntas com a diretoria e conselho do clube. Por outro lado, o clube e sua diretoria devem saber reconhecer o esforço dos torcedores e ter a humildade em aceitar ajuda, ou ao menos contra-argumentar para se chegar num denominador comum. A ajuda deve ser sempre bem vinda, se ela é de coração de sem segundas intenções. Num primeiro momento, fiquei contente em saber que ia ser criada uma comissão de torcedores que seria ouvida regularmente pelo Conselho do Guarani. Porém, parece que o assunto não foi pra frente e o assunto “morreu”. Não podemos deixar a peteca cair, essa comissão tem que ser efetivamente criada (por que não usar num primeiro momento a dormente “Amigos Desportistas de Campinas Associados”) e atuar ao longo do ano inteiro, tratando de vários assuntos e medidas, não somente dos clássicos “queremos jogador A”, “fora técnico B”.

O torcedor do Guarani mostra ter um perfil diferenciado em alguns aspectos, principalmente no que diz respeito a sua participação e na busca de produtos oficiais. Isso pôde ser visto no último final de semana quando a loja do clube vendeu muito bem, assim como no sábado com o treinamento aberto a torcida e no domingo da estréia da equipe, mesmo horas antes da partida, graças a movimentação promovida por outros torcedores com a realização de uma carreata e outras iniciativas, mostrando que a desejada “sociedade participativa” já está estabelecida entre as partes, com o torcedor exercendo seu papel de consumidor fiel e o clube colhendo os frutos dessa parceria.

Quando a comissão de torcedores for formada, esta deveria discutir e criar projetos alternativos de arrecadação, ações de marketing e de integração da torcida com o Guarani, ou ainda pequenas melhorias que podem contribuir para o conforto do torcedor. Para exemplificar e também para incentivar a discussão entre todos os torcedores do Guarani aqui vão algumas sugestões de temas a serem tratados:

- Preços de ingressos para cada uma das fases de todos os campeonatos que o Guarani participe.
Mesmo reconhecendo a importância e relevância que os recursos oriundos do Sócio-Torcedor têm, é preciso cotizar os valores desta contribuição deixada por tantos outros bugrinos nas bilheterias, e neste ponto uma observação pertinente, nossas receitas desta fonte parecem estar praticamente todas penhoradas, portanto é um sacrifício desnecessário exigir valores de grandes espetáculos para um produto tão descaracterizado como é uma terceira divisão de Campeonato Brasileiro.

Uma boa solução seria o escalonamento destes ingressos, em um acordo onde o avanço do time sirva como alavanca para preços maiores. Poderíamos começar com a sugestão de ingressos a R$10 nas duas primeiras fases, sendo que a partir da terceira, com a chegada das partidas decisivas, instituir-se um valor maior, quando o espetáculo passa a ganhar em importância.

Torcedores ausentes e distantes podem sentir-se motivados a comparecerem nestas fases menores, e depois, criado o hábito e recuperado o compromisso de acompanhar o Guarani costumeiramente, não ficariam de fora das decisões nos instantes finais da competição.

- Mutirões de ajuda com pintura, limpeza, cuidados ao gramado do Brinco de Ouro
A participação de torcedores voluntários nestas ações traz muito mais do que efeitos materiais e diretos, também traz a sensação de participação: “Eu ajudei a fazer aquilo”.

Nesta relação de sociedade participativa, tão importante quanto o dinheiro é a integração de toda uma coletividade com a causa maior que deve ser sempre a reestruturação do Guarani Futebol Clube, e nada melhor do que a integração total entre todas as partes para estabelecer  a parceria necessária.

Mais importante do que ver o estádio limpo e mais bonito é saber que pessoas integradas e sempre ativas no dia a dia do clube ajudaram com suas próprias mãos a tornar possíveis coisas básicas, mas que beneficiam todos.

Um exemplo claro de como isto pode funcionar corretamente ou ter uma conotação invertida dependendo de como uma questão for tratada aconteceu em 2006, quando o clube dispôs de urnas arrecadando contribuições. A atitude não foi errada, mas a destinação que foi dada aos recursos pode não ter sido a melhor para os olhos do torcedor. Certamente teríamos uma participação muito maior se as arrecadações, ao invés de serem destinadas a cobrir despesas do jogo, fossem destinadas à empreendimentos e obras visíveis, novamente no conceito “eu ajudei a fazer aquilo”, uma forma de ver em pé ou na prática o empenho da sua participação. Sempre rende mais frutos as obras visíveis do que os gestos de formiguinhas, afinal, “se vejo, sei que fiz, se só ouço dizer, não tenho como saber se fizeram e nem sinto a mesma emoção”.

Vamos lá torcida bugrina, vamos nos organizar e agir juntos!

Fica aqui também o meu apelo à diretoria e ao conselho que escutem os maiores interessados no bem estar do Guarani Futebol Clube, OS TORCEDORES, ou se preferir, NOSSA FAMÍLIA BUGRINA.

Novamente, estou sempre aberto para discutir sobre qualquer um dos temas e gostaria de receber e-mails com sugestões de outros bugrinos a respeito dos temas discutidos.

 

Caio Fagundes é colunista do Planeta Guarani
envie suma mensagem para: caio@planetaguarani.com.br

 

Temos  Bugrinos conectados neste momento.

Planeta Guarani.com.br Powered by PGWD - Campinas SP - Todos os direitos reservados
www.planetaguarani.com.br - Conteúdo exclusivo - proibida a divulgação sem autorização do autor. 2006 - 2008