A importância das categorias de base

Planeta Guarani, Segunda-feira, 30 de junho de 2008

No artigo desta semana vou entrar em uma área que pertence ao meu colega colunista Caio Fagundes, mas tenho certeza que ele não se importará com as menções que farei aqui pois é uma forma de mostrar aos dirigentes de clubes de futebol e aos torcedores, que o investimento em categorias de base (formação de atletas) é um negócio milionário desde que  seja mantido com seriedade.

Algumas agremiações não se importam em manter formação de atletas, alegando que os clubes com maior potencial econômico aliciam jogadores das categorias de base e acabam incentivando-os a deixar o clube formador e transferir-se a um clube com melhores condições financeiras. Um exemplo disto é o Bragantino; eu me recordo que nos jogos finais do Campeonato Paulista de 2007, o presidente do clube deu uma declaração pública dizendo ter acabado com as categorias de base, pois perderam muito dinheiro investido em atletas que por fim se transferiram para outras agremiações gratuitamente. Acredito que este fato tenha acontecido porque os atletas treinavam na condição de não-profissional, não recebiam bolsa aprendizagem, portanto são livres para transferir-se para qualquer agremiação, sem que exista possibilidade do clube formador buscar a indenização por formação.

Se for analisarmos essa declaração pelo lado ruim é óbvio que não compensará investir na formação de jogadores, pois através deste exemplo não adianta gastar com pagamento de bolsa aprendizagem, nutricionista, médicos, fisioterapeutas e bons treinadores, se o jogador aproveita do bom e do melhor entre os 14 e 17 anos e logo na primeira oportunidade, próximo de completar 18 anos, deixa o clube formador quando lhe surge uma proposta de remuneração, largando a agremiação de mãos abanando.

Acontece que essa não é uma atitude a ser generalizada. Primeiro porque, se isso acontecer o clube ainda tem com se ressarcir dos gastos originados com a formação deste atleta, se vocês bem lembram do que eu falei no meu primeiro artigo desta coluna.

Segundo, se o atleta for bem tratado e for educado a amar e servir ao clube que lhe proporciona oportunidades e investe em seu futuro, o jogador não tomará uma atitude desta. Importante também que exista uma conscientização dos dirigentes, não sendo demais informar que aquele que trata com descaso pode sofrer a recíproca.

Terceiro, os pais do menor em formação devem ser orientados freqüentemente sobre o fato do seu filho ser um atleta em formação e a importância moral, educacional, física  e até mesmo profissional para o crescimento do menor, no interior de uma agremiação desportiva séria e comprometida, do que ser um verdadeiro cigano das categorias de base. Significa dizer: alguns pais são adeptos da teoria do “vamos para aquele que paga mais”. Isso deve ser tratado diretamente com os pais, conscientizando-os da necessidade do jovem atleta manter-se em formação dentro de um único clube.

Então vejam vocês, a questão aqui pode ir muito além da vontade do atleta; é difícil encarar essa situação, mas a bem da verdade muitas vezes os pais vêem em seu filho uma mina de dinheiro e acabam tomando atitudes impensadas, tiram-no daqui para colocá-lo ali, em razão de valores oferecidos ou até mesmo por propostas tentadoras de empresários e agentes de jogadores feitas justamente aos pais em delicada situação financeira. 

Portanto no meu entender existem medidas importantes para a organização e manutenção das categorias de bases. A mais importante é celebrar contrato de formação com os pais dos jovens atletas e pagar mensalmente a partir dos 15 ou 16 anos um valor para incentivar o atleta a ter gosto pelo esporte. Que sejam R$ 100,00 ou R$ 150,00, que prejuízo isso pode dar ao clube, se em um prazo de uns 4 anos esse atleta proporcionar um retorno milionário ?

Compreendo, na atual situação financeira de determinados clubes é praticamente impossível arcar com um valor deste para custear 50 jogadores por mês, pois isso custará em média R$ 6.500,00. Então vamos lá ... mãos a obra, procurar um parceiro que invista isso, propor a ele que em caso de eventual transferência receberá uma porcentagem da venda.

Alguns dirão “mas isso ninguém vai topar, porque é um investimento de risco, pode ser que o investimento não de retorno”. Nesse caso então eu aconselho a abandonar o barco. Se o próprio dono do negócio não acreditar no sucesso do seu produto a melhor atitude é ir embora e não esquecer de fechar a porta. Me desculpe a sinceridade, mas não buscar investimento pensando que o investidor não vai dar atenção ao seu produto é porque nem mesmo o próprio vendedor acredita nele.

Mas sem fugir do assunto principal vamos aos números, trabalhando com valores brutos, vamos supor que um clube possui 3 categorias divididas pelas idades: 13/14 – 15/16 – 17/18, em cada uma destas categorias existem 30 atletas, temos portanto 90 jogadores em formação. Somado a isso temos professores, um médico, um fisioterapeuta e um nutricionista. Imaginemos que para isso é necessário gastar mensalmente R$ 50.000,00, incluído até mesmo alimentação. Anualmente temos um custo próximo de R$ 600.000,00.

Analisando esta situação com o coração, lembrando dos nossos craques que fizeram sucesso e tiveram suas raízes no Brinco de Ouro: Neto, Evair, João Paulo, Luisão e Amoroso, ou em um passado não tão longe Edu Dracena, Alex, Paulo André e lógico que esqueci de outros tantos. Enfim, que destes 90 atletas em formação metade sejam profissionalizados e atuem no time titular. Imaginemos que por ano precisemos negociar no mínimo dois jogadores por uma pechincha de R$ 3.000.000,00 (três milhões de reais), isso representará R$ 6.000.000,00 (seis milhões) ao caixa do clube.

Vejam vocês 1% de duas insignificantes vendas a nível de Brasil, mantém um ano de custo de formação de atletas.

Voltar as atenções para as categorias de base é tão importante ao clube como para o grupo de jogadores que disputa competições profissionais. Puxar para o time titular os jogadores que crescem juntos no esporte acabam conhecendo as particularidades individuais e do conjunto, facilitando o entrosamento, a comunicação e o uso de jogadas combinadas. Base sólida clube sólido.

Admito opiniões contrárias, mas no meu entendimento contratar de 18 jogadores por temporada não é tão seguro quanto investir em categorias de base para produzir atletas treinados para vencer.  

 

 

Rodrigo Ferreira da Costa Silva e advogado, membro da comissão de direito desportivo da OAB Campinas, especialista em direito desportivo pela Escola Superior de Advocacia de São Paulo.
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