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Planeta Guarani, 08 de março de 2008

E o homem de preto apitou o fim do jogo, e a gente que tava ali na cabeceira, vendo a festa bonita das organizadas juntas, juntas pela primeira vez na vida, juntas em um grito só de Guarani e de bugrão, a gente ficou com um nó na garganta, uma vontade louca de chorar e de pedir ao cara lá de cima que dê uma luz, que acene com um pouquinho de esperança pra esse povo sofrido e desgraçado que veste verde e enfrenta semana após semana o calvário de se amar o alviverde. "Daqui a um mês a gente faz noventa e sete anos", pensei cá com os botões da minha camisa da lousano, aquela que envergou molecada digna de seleção brasileira, molecada que sabia jogar bola e honrar o Bugre. E o presente? O presente pode ser um rebaixamento, não mais um, não outro como aqueles do tempo do gordo com nome de chuveiro, mas uma pá de cal, uma pedra daquelas de lápide, com o "aqui jaz" e tudo. E na mão da coitada do proença, que pode ajudar a enterrar quem já tá só com a cabeça pra fora da terra. Em volta, o povo lamentava e desistia, abandonava. Uns dizendo que já era, que o barco afundou, outros que não dá mais, e no mar de melancolia que foi aquela saída do Brinco nem uma gota de esperança se via. Cenário de canceroso dando o último gole de morfina, despedindo da família e partindo pra um lugar onde o céu não existe.

Aí eu entrei no meu Poisé (pra quem não é do tempo do Evair, Poisé é o apelido carinhoso que a gente dava pro Fusca na época em que o centroavante do Bugre tinha duas chances e fazia uma - quando não as duas) e toquei pra casa, escutando o Cd do Chico Buarque, gravado na época em que o Bugre tinha o melhor ataque de todos os Brasileiros da história. E chorei que nem criança, chorei o choro dos desiludidos, a angústia dos que pouco ou nada podem fazer quando a vaca tá no brejo afundando, devagarinho, e nem uma corda se tem pra puxar. E aí, quando acabei de chorar aquele aguaceiro todo que inundou meu peito mais do que a chuva do jogo do Bragantino, eu fiz o que todo bugrino deve fazer: atarraquei o manto bem forte e rezei. Rezei pro Cris, pra que ele tenha serenidade e sossego e consiga espantar a zica que o pegou. Rezei pro Selmir, pra que ele consiga responder um pouquinho da expectativa que se criou com a sua chegada. Rezei pro Gisiel, pro Xandão, pro João Paulo e pro Paulo Santos, pro Alessandro e pro Maranhão, e pra cada um dos atletas que hoje vestem a camisa da coisa mais importante da minha vida.

Porque cá entre nós, adianta eu meter o pau? Adianta grudar na grade, mandar a putaqueopariu dos quintos dos infernos, amaldiçoar as quinze gerações futuras do caboclo e detonar de uma vez por todas o último sopro de vida que resta? Pra mim não. Tá, eu sei, já faz tempo que a coisa tá feia, ninguém aguenta mais, é pataquada atrás de vergonha, não há uma segunda feira em que a gente possa sorrir. Eu sei de tudo isso! Mas, perdoem-me os realistas, eu amo demais essa merda. DEMAIS. Eu amo tanto essa desgraça de Guarani que eu vou em todos os jogos, todos, na conchinchina ou na casa do carvalho, e vou usar tudo, tudo o que me resta de pulmão pra gritar pelo Bugre. Eu não vou xingar quando esse fizer uma cagada, ou quando aquele tropeçar na bola. Eu só vou gritar pelo Bugre. E vou aplaudir, e bater no peito, gritar o meu amor e chorar ao fim de cada partida se necessário for. Estarei ali, na geral, no meio do povo, sejam cem ou cem mil torcedores, canhoto na mão, pedindo a Deus que dê uma gota a mais de gás aos caras ali dentro, um tiquinho a mais de ar no passe longo, um tantinho a mais de força na dividida. Estarei lé até o coveiro pregar o caixão e bater o último punhado de terra, e vai ser em cima de mim, pois eu pulo dentro do buraco pra cavar e desenterrar.

Eu sou só mais um José Brasileiro, o Zé da Taba, que não há vez em que não se emocione só de passar diante do Brinco. Não tenho estudo, nem sou Doutor, apenas outro dos que enfrentam a dureza do dia a dia e ainda reservam ânimo pra apoiar a paixão maior que é o Bugre campineiro. Acordo, tomo café na padaria do portuga, pego no batente, pago as contas e, se não sou lá o Martin Luther King ou a Madre Tereza de Calcutá, dou minha força a quem precisa. Cidadão absolutamente comum, como aqueles tantos que deixam a esposa em casa (ou a levam junto) e aparecem nas arquibancadas pra dar o seu apoio, transmitir a sua emoção e empurrar o glorioso. Não sou diretor, nem conselheiro, nem nada. Sou o Zé da Taba bugrino sofredor a crente eterno, crente no Bugre que um dia bateu no Palmeiras e ergueu a taça mais importante do país. Mesmo assim, e com toda a humildade do mundo, quero deixar aqui dois, dois pedidos do fundo do meu coração.

Aos jogadores, que larguem a última gotícula de suor e sangue na grama verde do Brinco. Eu sei que as coisas estão complicadas, que nada parece dar certo, que o mundo tá contra e a macumba não desfaz. Dane-se. Dêem o seu melhor. E quando complicar, quando bater a insegurança, olhem pra arquibancada e lembrem que o Zé tá ali, e o Zé não tá xingando ninguém, tá só apoiando, rezando e torcendo. E se errarem, não faz mal, é só correr atrás, e recuperar, e refazer, e de novo, e de novo, até ela entrar, e ela vai entrar. E quando a rede estufar lindo, e aquela explosão de alegria vier, lembrem-se do Zé, e batam no peito com força, com garra, mostrando que são homens de verdade, homens que não vão, de jeito nenhum, abandonar o barco quando mais se precisa de vocês. E ignorem as vaias, os insultos, tapem os ouvidos para as cornetas que soam alto, pois como dizia o Vô Taba, depois da tempestade sempre vem a bonança, o sol abre, a água seca, tudo fica lindo. A vocês, meu pedido é garra, nada mais do que garra, e independente do resultado e do futuro, o Zé aqui baterá palmas, palmas à superação do medo e da limitação, palmas de orgulho pela luta.

E a você, torcedor, sofredor como eu, que não aguenta mais sair de queixo no peito da nossa velha casa, persevere. Aguente! Aguente aquele passe bisonho, aguente o cruzamento que não subiu, ou o que subiu muito, e não despeje a sua ira no campo. É, duro, é muito duro, eu sei o quanto te dói! Mas dê a sua força, toda ela, a maior carga de pensamento positivo que você suportar, e berre a plenos pulmões o seu entusiasmo. Porque entusiasmo e desânimo são como doença contagiosa, se espalham e pegam em todo mundo que estiver em volta. Contamine aqueles camaradas de verde no tapetão com sua fé, com sua certeza, e não permita que aquela ira do estômago saia, não ainda, não até que o nosso Bugre, o nosso amor maior, escape da beira do abismo. Contagie seus amigos, seus colegas de trabalho e o mundo, o Guarani vai se reeguer, se levantar do marasmo, vencer. Siga o exemplo das Organizadas, do show lindo contra a Chapecoense, gritando em prol de um amor comum, um sentimento que nos une e que nada vai conseguir separar.

Bora pro Brincão!

Em tempo, um: Pra quem não conhece, a letra de uma música que consta do CD "O Bugre do Milênio". Vale muito pra essa hora:

Desde onze você é nossa maior glória
Orgulhamos, como é linda a sua história
Quantos gols, quantas vitórias
Quantas coisas na memória
Juntamente com de Vitto, tu és criação divina
Se você não existisse...
Ah, meu Bugre
Eu mesmo te fundaria
Para amar-te noite e dia

Mesmo se perder não vou chorar
O importante é você existir, isso é amor
Pois você é meu amor e vai
Vai para sempre existir, isso é amor
Sei que o De Vitto fez um clone, um clone seu no infinito
Para quê?
Pra quando eu morrer te reencontrar
De novo meu Bugre querido
Te amo meu Bugre querido.

Em tempo, dois: LANÇO AGORA A CAMPANHA "EM PAZ COM O MEU BUGRE". Você, torcedor, leve ao jogo do Ituano um pedaço de pano branco, ou uma folha sulfite, ou qualquer coisa branca, e agite nas arquibancadas durante o jogo. Mostre que você está em paz, que está ali pra vibrar e empurrar o time, e que você não o abandonará nunca. Mostre aos jogadores que eles podem contar com você. Nós somos a salvação do Guarani. Faça a sua parte.

Em tempo, três: Três a um pra gente. Vai ser. E pronto e acabou.

Em tempo, o final: Cris detonará no Derbi. Destruirá. Previsão direto do além, por Dona Margá, a que nunca erra.

Zé da Taba é colunista do Planeta Guarani
envie suma mensagem para: ze_da_taba@planetaguarani.com.br

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