Muitas vezes as pessoas me perguntam como foi possível um clube com o tamanho, a importância, a tradição e, principalmente, com uma Torcida apaixonada como o Guarani deixar de ocupar uma posição entre os maiores clubes do futebol brasileiro. Conhecido como o “Gigante do Interior” (apelido dado pelo falecido narrador Fiori Giglioti), como foi possível despencar tanto assim, ao ponto de deixar até mesmo de disputar competições desgastadas como a primeira divisão do Campeonato Paulista?

São vários os fatores, não foi em um dia que este processo aconteceu, ele é fruto de uma sequência de fatores, atitudes, decisões e muita, mas muita força mesmo, para que ao final chegássemos aonde chegamos.

Para os mais velhos alguns fatores que vou abordar nesta série de colunas pode trazer recordações positivas ou negativas, concordância ou discordância, já para os mais jovens, certamente alguma luz há de vir para que o futuro possa chegar enfim, e o Bugre consiga superar, ou até mesmo não supere, mas ressurja.

Vamos viajar no tempo e conhecer alguns detalhes? Sim, vou citar nomes e momentos diferentes de administrações, gestões e acontecimentos. Alguns deles ainda hoje marcados na memoria dos que viveram, ou mesmo dos que ouviram falar, mas são fatos marcados na história e ela não pode ser adulterada, tem que ser contada.

O Auge – Década de 1970 – Início de 1980

Guarani 1973Sem dúvida nenhuma o Guarani atingiu seu auge a partir da segunda metade da década de 1970, mas já no início, em 1973, reconhecido como um exemplo de clube de futebol, disputa pela primeira vez o recém criado Campeonato Brasileiro. A denominação Campeonato Brasileiro surgiu apenas em 1971, seu primeiro campeão foi o Atlético Mineiro e já na terceira edição era o Guarani exatamente o primeiro clube a representar o interior do Estado de São Paulo na competição nacional, e o Bugre não fez feio não, avançou até as semifinais do Campeonato, um feito de muito respeito, conquistando a oitava colocação.

guarani_1976Em 1976 era o Bugre quem conquistava o Primeiro Turno do Campeonato Paulista ao vencer o São Bento de Sorocaba e receber o então título simbólico de Campeão do Primeiro Turno. Simbólico sim, mas extremamente respeitado e cobiçado por todos os grandes.

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Equipe titular do Guarani Campeão Brasileiro de 1978.

Claro, tudo isso culminou com aquilo que todos conhecemos, a conquista, em 1978, do Campeonato Brasileiro, feito inédito até os dias atuais para uma equipe do interior do país. Além de toda a campanha e da conquista do título que todos nós já conhecemos, vale ressaltar que o Bugre de 1978 (e início de 1979) mantem até hoje a maior sequência de vitórias da história do Campeonato Brasileiro, foram 12 vitórias consecutivas, 11 nas últimas partidas de 1978 e 1 na primeira rodada do Brasileiro de 1979.

Em 1979 ainda veio a disputa da Taça Libertadores da América, com o Bugre terminando a competição Sul Americana na quarta colocação, chegando até as semifinais do torneio. Isso em uma época que as televisões não repercutiam o torneio com tanta assiduidade, e os jogos disputados fora do país se transformavam em verdadeiras praças de guerra, com arbitragens medonhas, caseiras e visivelmente comprometidas.

Tudo isto estava ligado a uma receita de sucesso que jamais deveria ter sido abandonada. Naquela época, e todas as vezes que tentou fazer diferente o Bugre não se deu bem, a política do clube era revelar atletas nas suas categorias de base, usá-los ao menos por três temporadas no elenco profissional para dar destaque e valorizar o jogador, apostar na contratação de jogadores de potencial, mas ainda com muito espaço a conquistar no mundo do futebol, e era assim que os times profissionais eram montados. O Bugre só negociava seus atletas quando outra revelação surgia para a mesma posição lá, na sua base, o temido e respeitado Departamento Amador do Guarani Futebol Clube.

Estrutura, investimento em instalações, políticas de inovações, tudo isso fazia do Bugre um modelo, ao ponto de inovar o mundo do futebol no Brasil sendo uma das primeiras equipes a construir um Centro de Treinamentos para os atletas, fossem da base, fossem do profissional.

Resultado: Clube estruturado, amplo quadro social (o Guarani chegou à marca de mais de 25 mil associados durante as décadas de 1970 e 1980), departamento amador respeitado e procurado por atletas de todo o Brasil e a certeza, aqui estava localizado um dos maiores celeiros de craques deste país. Isso, aliado a uma continuidade de administração, foi dando ao Guarani a ampliação de sua marca no cenário estadual, nacional e internacional.

As equipes amadoras e de aspirantes do Guarani Futebol Clube constantemente decidiam competições, enquanto a equipe profissional, recheada por estes jogadores destacados, angariava cada dia mais e mais sucesso, respeito, tradição, e claro, deixando sua Torcida Feliz.

Política? Claro que ela existia, mas era uma situação administrável, sem discussões e onde o respeito imperava até nas decisões que eram contrárias.

Assim, com um grupo forte dentro e fora de campo, investimentos na estrutura, no trabalho de base, em boas condições de alojamentos e treinamentos, ao final da década de 1970 o Brinco de Ouro precisou ser ampliado e a decisão foi negociar dois atletas já consagrados e destacados para que o tobogã pudesse ser construído e assim a Torcida que mais crescia no Brasil teria finalmente espaço e conforto para realizar as grandes festas que futuramente faria.

Quais os atletas? Renato Frederico (Pé Murcho) e Zenon, os camisas 8 e 10 do time Campeão Brasileiro, mas a decisão foi de preservar o cobiçado Careca, já beirando seus 20 anos e desejado por todos os grandes clubes de futebol do Brasil.

careca-guaraniA estrutura Bugrina era tão grande que apenas em 1982, depois de ser convocado para a disputa da Copa do Mundo da Espanha e ser cortado por conta de uma contestada lesão no joelho, é que Careca foi vendido ao São Paulo, sim, já haviam se passado quatro anos da conquista do título de 1978, mas antes ainda cabia mais um título.

mendonça_gfcEm 1981 o Bugre ousou e foi buscar no Palmeiras um dos maiores craques que eu vi atuar com esta camisa 10. Quem era? Simplesmente Jorge Mendonça, meia-atacante que havia sido convocado para a Copa do Mundo da Argentina em 1978 e que, já sem espaço no Palmeiras, enxergou no Guarani o lugar ideal para recomeçar sua carreira, e ele recomeçou!

Em 1981 Jorge Mendonça terminou o Campeonato Paulista com a incrível marca de 38 gols marcados. Foi o artilheiro da competição, e mais, o maior artilheiro se desconsiderada as campanhas do Santos, primeiro com Feitiço marcando 39 gols em 1931 quando o futebol era longe de ser o que se tornaria décadas mais tarde, e depois em 1958, 1959, 1961 e 1965 quando Pelé ficou com o título de artilheiro marcando inacreditáveis 58, 44, 47 e 49 gols respectivamente (CLIQUE AQUI E CONFIRA A LISTA DE ARTILHEIROS DO PAULISTÃO). Aposta feita, sucesso conquistado e o trio de ataque que tinha Jorge Mendonça, Lucio e Careca encantaria, com a camisa Bugrina, mais uma vez o Brasil.

guarani_1982Sim, invadindo um pedacinho da década de 1980, depois de conquistar a Taça de Prata de 1981, lá estava novamente o Guarani em uma semifinal de Brasileiro. Sem entrar na polêmica, mas lembrando bem como menino que era, é impossível esquecer de tudo o que aprontou em pleno Brinco de Ouro o gaúcho Carlos Sérgio Rosa Martins, arbitro escalado pela CBF para apitar a partida contra o Flamengo, no Brinco de Ouro, que decidiu qual das duas equipes disputaria o título brasileiro da temporada.

Claro, também não dá para não citar as desconfianças sobre a atuação do então goleiro titular Wendel e resultado: Guarani 2 (dois gols de Jorge Mendonça, um deles um golaço de voleio), Flamengo 3 (três gols de Zico, um deles em uma falha do goleiro Wendel num chute despretensioso de fora da área, outro em um pênalti marcado quando Almeida foi cortar um cruzamento, a bola explodiu no seu peito e o árbitro, sem pensar duas vezes, apontou para a cal).

Não dá para não citar também que esta é a partida que marca o recorde de público no Brinco de Ouro da Princesa quando 52.002 pessoas oficialmente assistiram a partida, mas cá entre nós? Tinha mais! Tinha gente nas torres de iluminação, tinha gente até “assistindo” ao jogo do foço, e não era pouca gente.

Ah o Bugre! O Bugre não, o Bugrão de 1982 detém até hoje a maior média de gols marcados na história do Campeonato Brasileiro, aquele que começou a ser disputado em 1971, com incríveis 2,65 gols de média por partida. Quantas saudades.

Conclusão

Enquanto o Bugre manteve a formula: Estrutura vinda de um departamento social forte, capaz de manter as atividades futebolísticas e esportivas em geral, afinal naquela época, mesmo não sendo sua prioridade, o Bugre revelava a jogadora de voleyball Vera Mossa, uma das principais jogadoras da modalidade na história do esporte brasileiro, era o Bugre o maior exemplo de sucesso do futebol brasileiro, uma verdadeira escola para o Brasil, que aqui aprendeu, e depois empreendeu.

Enquanto o Bugre verdadeiramente revelava jogadores para o futebol brasileiro e mundial, investia nestes atletas, os valorizava, criava sucessores nas próprias categorias de base e só então os negociava, manteve-se entre os Gigantes incontestavelmente do Futebol Brasileiro.

Enquanto o Bugre investiu na contratação de atletas em destaque, jogadores promissores, mas ainda buscando espaço no mundo da bola, ele manteve-se entre os grandes, e mais do que isso, pontuou a lista dos maiores do Brasil.

Claro, atletas eram vendidos, mas dificilmente passavam menos de duas, três temporadas com a gloriosa camisa Bugrina, ou seja, saiam deixando seu talento aos torcedores e o bom dinheiro arrecadado nas suas negociações, afinal, estavam muito valorizados.

Esse é o Guarani, muito mais do que o Gigante do Interior, o Gigante do Brasil, e na próxima semana vamos falar do Guarani ainda Gigante, disputando títulos e mais títulos na segunda metade da década de 1980, e os primeiros passos daquilo que viria a trazer todos os problemas que temos hoje, infelizmente as malfadadas dívidas.

Gostou? Comente! Se você não sabia, fique sabendo que este é o seu Guarani, se você sabia, ou se mais ainda, viveu tudo isso, comente também, relembre dos tantos e tantos craques que você viu passar por aqui, tenho certeza que eu, nos meus 38 anos de Brinco de Ouro da Princesa, não cheguei a ver a grande maioria deles.

Semana que vem volto com mais uma parte, a segunda de um total de seis, que semanalmente vou trazer para todos. Vamos viver juntos e tentar descobrir aonde, quando, como e por que chegamos onde chegamos. Quem sabe descobrindo isso juntos, encontremos o caminho para o recomeço ainda mais grandioso, ou então, para um futuro tranquilo.

Quem sabe?

Marcos Ortiz
Planeta Guarani