Lisca em Criciúma. Foto: Radio Difusora AM 910.

Vamos nos reencontrar com o Bugre no ano de 1990, suas conquistas, andamentos, situação, bastidores e mais alguns detalhes? Quando iniciei esta série meu propósito era, e continuará sendo, o de mapear os problemas, as primeiras dificuldades, as últimas, e aquilo que, no meu entendimento, conduziu o Bugre à situação atual.

*Esta coluna foi antecipada e será a última postagem do nosso site em 2014. Feliz Ano Novo, Torcida Bugrina!

Claro, nem tudo cabe, ou nem tudo pode ser dito. A história cabe àqueles que a conhecem, todos os detalhes dela ficam e ficarão vivos na memória de quem os viveu. Erros, acertos, caminhos, decisões, polêmicas, fatos, dados, é isso que vou apresentar, claro, misturado com um pouquinho de futebol, afinal, não é para isso que estamos aqui?

Chegamos a um momento que deixou boa parte do Brasil perplexo: A máquina de jogar futebol que encantou o país nos últimos 15 anos estava rebaixada à Série B do Campeonato Brasileiro.

Me lembro bem das declarações da época vindas do presidente Beto Zini: “Nós voltaremos ao final do ano”.

Jogadores comemoram o gol do empate por 1x1 contra o XV - Foto do acervo de Carlos Bassan.
Jogadores comemoram o gol do empate por 1×1 contra o XV – Foto do acervo de Carlos Bassan.

E toda a Torcida Bugrina acreditou! Mas dentro de campo não foi isto o que se viu naquela época, alias, víamos um Guarani contrário ao que sua tradição trazia, fazendo campanhas muito melhores no Campeonato Paulista do que no Brasileiro. Foi assim em 1988 quando decidiu o título, em 1989, quando foi eliminado pelo São Paulo já em fase decisiva da competição e novamente em 1990 quando após empatar por 1×1 com o XV em Piracicaba, deixou de conquistar vaga na final do Paulistão.

A escalação do Bugre segue mostrando diferenças entre os momentos, vamos dar uma espiada no time que esteve em campo em duas partidas diferentes, a estréia contra o Santo André e a última partida, contra o XV de Piracicaba:

Guarani 0x1 Santo André: Sérgio Neri, Jura, * Vítor Hugo (Má), Cassus e Cilinho; Pereira, Tosin (Robinson) e Pita; Hélcio, Cristóvão e Aírton. * Prestem muita atenção a este nome, o zagueiro Vitor Hugo é um capítulo a parte na história do Bugre

XV de Piracicaba 1×1 Guarani: Sérgio Neri, Betão (Zé Carlos), Pereira, Tosin e Albéris; Charles, Vagner Mancini (Sérgio Araújo) e Pita; Hélcio, Rubem e Zinho. Técnico: Eli Carlos.

Em 1990 Pita era a aposta. Ex-jogador de Santos e São Paulo, e nenhum sucesso no Bugre.
Em 1990 Pita era a aposta. Ex-jogador de Santos e São Paulo, e nenhum sucesso no Bugre.

Mantemos o prata da casa Sérgio Néri no gol e Vagner Mancini, outro prata da casa, começa a se destacar no time titular, e tínhamos o lateral-direito Jura que nunca conseguiu se firmar no time titular, mas era só isso. O Bugre já apostava na contratação de jogadores como o atacante Zé Carlos vindo do Flamengo, o também atacante Cristóvão que havia jogado por grandes equipes e já vivia sua segunda temporada (é o mesmo Cristóvão Borges, hoje treinador), Alberis que vinha da Portuguesa, o volante Charles, um dos destaques do rival da cidade que já fazia sua segunda temporada no clube, o zagueiro Pereira que já ia ganhando ares de ídolo da torcida na época, o atacante Sérgio Araújo que anos atrás se destacou jogando pelo Atlético Mineiro e o meia Pita, jogador de muito destaque na década de 1980 jogando pelo São Paulo, mas que no Bugre pouco apareceu. Da equipe Bugrina de grande destaque na segunda metade da década anterior apenas Tosin, volante, permaneceu.

A receita do comando da equipe também havia mudado, o Bugre começou o Paulistão com Cilinho, passa a ser comandado interinamente por Dimas Monteiro (preparador de goleiros), depois quem assume é Eli Carlos que encerra o Paulistão. Durante uma série de amistosos Mílton dos Santos comanda a equipe interinamente, volta a ser comandado por duas rodadas da Série B por Eli Carlos e quem em seguida assume é o Bugrino Zé Duarte que vai até o final da competição.

Na Série B de 1990 surge a primeira grande frustração da Torcida Bugrina quando na disputa do quadrangular semifinal, após empatar a decisão da vaga com o Sport em pleno Brinco de Ouro por 1×1, o Bugre se despede da competição, não conseguindo chegar às finais e consequentemente, não conquistando o acesso.

Foto: Gazeta Press.
Foto: Gazeta Press.

O acesso viria em 1991, ano em que houve uma inversão de calendário. A temporada começou com a disputa do Campeonato Brasileiro e o Bugre, com alguns jogadores veteranos contratados, entre eles Edson Abobrão (foto) e Biro Biro (ambos ex-Corinthians) e seria assim que esta campanha se desenharia.

Na equipe que inicia a competição chama a atenção a presença de um único prata da casa, era o goleiro Marcos Garça, que seria decisivo na conquista do acesso Bugrino. No ataque Zé Carlos e Vonei, atacante contratado junto à Ferroviária, se destacavam também, mas o principal destaque Bugrino naquela campanha, sem dúvida, era o técnico Pepe.

Vamos dar uma conferida na equipe que disputou a primeira partida contra o Atlético-GO, um empate por 0x0 no Serra Dourada: Marcos Garça, Edson Abobrão, Paulo Silva, Pereira e Gilmar; Charles, Toninho e Vander Luís; Hélcio (Fábio Henrique), Vonei e Claudinho (Vagner).

Durante a competição apenas dois pratas da casa surgem no elenco, o lateral-direito Jura e o lateral-esquerdo Valmir, e assim, depois de um confronto inesquecível contra o Noroeste pelas quartas de final da competição, o Bugre consegue avançar à semifinal.

A vaga veio após empatar no Brinco de Ouro por 1×1 e ter que decidir a classificação em Bauru, contra um Noroeste que jogava pelo empate por ter melhor campanha. Depoimento pessoal: Um verdadeiro inferno! CLIQUE AQUI E VEJA OS GOLS DA PARTIDA.

Presente em grande número, mas diante de uma imensa maioria de torcedores do Noroeste, a Torcida Bugrina foi acuada desde sua chegada ao estádio, onde ocuparia uma das cabeceiras. Muita confusão, pedras atiradas contra os Bugrinos durante toda a partida e dentro de campo um jogo cheio de emoções, muitas mesmo.

Precisando vencer, o Bugre abriu o placar aos 14 minutos do segundo tempo com o artilheiro Vonei. Neste dia a violência praticada no estádio Alfredo de Castilho foi tão grande que o ônibus que conduzia a imprensa campineira e um automóvel particular pertencente a um dos seus integrantes foram incendiados.

Jogando pelo empate, o Noroeste pressionava muito e nos minutos finais teve uma grande chance de marcar, mas Marcos Garça defendeu, sem dar rebote. Na reposição de bola Vonei recebe para o Bugre ainda no campo defensivo, invade o campo de ataque, arranca, passa pelo goleiro e marca o segundo gol, carimbando a vaga na semifinal para festa dos muitos Bugrinos presentes e para mais uma explosão de violência nas arquibancadas. Acuados, os Bugrinos tiveram que invadir o gramado, forçando o encerramento da partida e era lá, dentro do campo, que a festa acontecia, mas fora dele um confronto inimaginável entre a torcida local e a Polícia Militar se estenderia até por volta das 21:00, cerca de três horas depois do final da partida. Foi só por volta das 22:00 que conseguimos deixar o gramado do estádio, e quem veio nos buscar foi o técnico Pepe, mas deixar o local não significou segurança, pelo contrário, muitos dos ônibus foram apedrejados na saída da cidade e vários Bugrinos que tinham viajado em seus carros particulares também acumularam enormes prejuízos.

UFA!!! O time que entrou em campo e enfrentou esta verdadeira batalha tinha: Marcos Garça, Valmir, Paulo Silva, Pereira e Julimar; Biro-biro, Vânder Luís e Nenê; Ivair (Ernani), Vonei e Claudinho (Vágner).

Ainda era preciso buscar o acesso e para isso o Bugre teria o mais duro de todos os adversários na competição, o Coritiba seria o oponente nas semifinais da Série B de 1991 e seria mais uma batalha inesquecível.

Nenhuma das duas equipes levava vantagem, se persistisse o empate o acesso seria decidido na cobrança de penalidades, e não é que foi assim que aconteceu?!

Pepe, ao lado do filho Pepinho, durante passagem pelo Bugre nos anos 2000. Técnico foi fundamental para o acesso em 1991.
Pepe, ao lado do filho Pepinho, durante passagem pelo Bugre nos anos 2000. Técnico foi fundamental para o acesso em 1991.

Em Curitiba uma derrota por 1×0, já na decisão, no Brinco de Ouro, uma vitória Bugrina por 1×0 que definitivamente daria ao zagueiro Pereira o status de ídolo da Torcida na época. Depois de ter perdido uma penalidade aos 14 minutos, foi dele o gol do Bugre marcado aos 45 minutos do primeiro tempo que garantiria o resultado (melhor deixarmos a polêmica do gol de Chicão anulado para um outro momento, não vai caber!).

Aflitos, os 17.059 torcedores presentes ao Brino acompanharam uma decisão por pênaltis não menos emocionante. O Coritiba abriu as cobranças, Heraldo converteu, Vonei empatou, Chicão marcou 2 X 1, Pereira empatou, Pachequinho pôs novamente o Coritiba na frente e Vagner voltou a empatar para o Bugre, Catani fez 4×3, Valmir empatou e a explosão viria na série seguinte quando Nardela cobrou e Marcos Garça defendeu, em seguida Edson Abobrão converteu para o Bugre carimbando o acesso para a Série A de 1992 e causando uma grande festa nas ruas e arquibancadas de Campinas.

Em meio a tudo isso, uma tirinha de bastidores da época: Durante o campeonato o lateral-direito Edson Abobrão teve uma discussão muito forte com o presidente Beto Zini, e quis o destino que justamente ele tivesse a responsabilidade de cobrar e marcar o pênalti do acesso. Ainda bem que o profissionalismo do jogador falou mais alto neste momento.

O time que entrou em campo e conseguiu o acesso tinha Marcos Garça, Jura, Paulo Silva, Pereira e Julimar; Biro-biro, Valmir e Edson Abobrão; Nenê (Ivair), Vonei e Claudinho (Vagner). Técnico: Pepe.

Caramba, todo o acesso do Bugre é assim? Restava a final, mas a vaga na Série A já estava garantida e para o Bugre o confronto com o Paysandu poderia trazer mais um troféu. A decisão começou bem, no jogo de ida, no Brinco de Ouro, com um gol de Claudinho, o Guarani venceria por 1×0 e iria para Belém jogando com a vantagem do empate, mas a decisão do título seria polêmica e de resultado infeliz.

O empate levaria o jogo para a decisão por penalidades e diante de um Mangueirão lotado com 34.039 pagantes, mais um incalculável número de não pagantes, mais uma vez um resultado contestado em uma final de campeonato marcaria a história. CLIQUE AQUI E VEJA OS GOLS DA PARTIDA.

Foto: Gazeta Press
Foto: Gazeta Press

O Paysandu abriria o placar aos 21 minutos com Cacaio, mas o problema viria depois, quando aos 36 minutos, numa jogada irregular, Dadinho faria o segundo. A revolta dos jogadores do Bugre foi tão grande que todos partiram para cima do árbitro, o baiano Manoel Serapião Filho que não pensou duas vezes, expulsou de uma só vez Biro-Biro, Vonei, Julimar, Valmir, Jura e Zé Roberto, com isso o Bugre sequer teria a chance de tentar recuperar o placar, pois a partida foi encerrada em seguida por não ter o Guarani o número mínimo de sete jogadores em campo para poder continuar a disputa. Se houve a influência favorável da arbitragem na semifinal contra o Coritiba (E HOUVE), o Bugre viveria o outro lado da moeda na decisão de Belém do Pará.

A equipe que jogou a final contra o Paysandu teve: Marcos Garça, Jura, Vladimir (Zé Roberto), Julimar e Valmir; Biro-Biro, Vânder Luís e Edson Abobrão; Nenê (Adriano), Vonei e Claudinho. Técnico: Pepe.

Perdemos o título, mas subimos! Mesmo não presente na arquibancada, podemos dizer que este foi o primeiro capítulo do “Vamos Subir Bugre” entre a Torcida Bugrina.

De volta a Série A do Brasileiro o Guarani enfrentaria uma outra realidade, o futebol brasileiro já vivia um outro momento, com os chamados grandes clubes contando com cotas de transmissão cada dia maiores e um fator novo já se fazia presente, a parceria Palmeiras-Parmalat, que, além de trazer grandes títulos ao Palmeiras, causou uma “inflação” enorme nos salários dos atletas, isso influenciado pelo alto valor pago pela multinacional italiana. Como conviver com isso?

Eu poderia estender esta coluna, mas ela ficaria cansativa e não teríamos a devida atenção à fase Pereira, Edilson e Edu Lima, nem tão pouco traria a devida referência à fase Amoroso, Djalminha, Luisão, Carlos Alberto Silva, Jorge Luiz e todo o elenco de 1994, então vamos à conclusão e continuamos daqui?

Conclusão

Vivendo uma realidade totalmente diferente, o Bugre pela primeira vez na sua história precisou lutar por um acesso e teve muitas dificuldades. Amparado na máxima do futebol que diz que é preciso time experiente para subir, foi esse o investimento da diretoria, contratar, contratar e contratar.

Mauro Silva pelo Bragantino em 1990.
Mauro Silva pelo Bragantino em 1990.

E a base? A base neste primeiro momento ficou relegada aos jovens Marcos Garça e Jura, sabem por que? Simples, voltando só um pouquinho ao campo, em 1990 o então presidente do guarani Beto Zini resolveu investir na contratação de um zagueiro, era Vitor Hugo, jogador que havia se destacado pelo Bragantino no ano anterior. Em contrapartida o Bugre envolveu sete jogadores na troca, entre eles estavam: O volante Mauro Silva (FOTO – Campeão Mundial com a Seleção Brasileira em 1994), o zagueiro Junior, o também zagueiro Nei, o lateral-direito Gil Baiano (também com passagens pela Seleção) e o atacante Mário Maguila.

Resultado, com a receita de sucesso do Bugre, o Bragantino, tendo todos eles entre os titulares, sagrou-se Campeão Paulista em 1990 e seria vice-campeão brasileiro em 1991. Já o Guarani teve Vitor Hugo em campo por poucas rodadas, até que, com fraco desempenho, e diante da insatisfação da torcida, negociou o jogador. Depois destas campanhas, com os jogadores muito valorizados, o Bragantino negociaria praticamente todos os atletas vindos do Bugre e conseguiria suporte financeiro para as próximas temporadas.

Alguma semelhança com a história contada nas colunas anteriores? Se houver (E HÁ), não é mera coincidência!

E mais um detalhe: Na única campanha em que o Bugre teve um treinador efetivo trabalhando praticamente durante todo o campeonato, o sucesso veio. Foi Pepe um dos grandes responsáveis pelo acesso em 1991.

Finalmente, no próximo capítulo vamos encontrar Edilson, o “Capetinha” e os inesquecíveis Amoroso, Djalminha e Luisão.

Até a próxima semana!

Lembrou de algo? Quer acrescentar algum detalhe? Não deixe de deixar seu comentário, é você quem escreve esta série de colunas, você, suas memórias e seu amor pelo Bugre.

Aqui marcamos mais um capítulo importante, uma época em que, sem dar o menor valor à sua base, o Bugre chega ao pior momento até então da sua história.

Marcos Ortiz
Planeta Guarani